A selva escura - As feras - O espírito de Virgílio
Quando eu me encontrava na
metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e
a minha vida não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-la!
Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança
me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível.
Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, terei antes que
falar de outras coisas, que do bem, passam longe.
Eu não sei como fui parar naquele lugar sombrio. Sonolento
como eu estava, devo ter cochilado e por isso me afastei da via verdadeira.
Mas, ao chegar ao pé de um monte onde começava a selva que se estendia
vale abaixo, olhei para cima e vi aquela ladeira coberta com os primeiros
raios do sol. A cena trouxe luz à minha vida, afastou de vez o medo e
me deu novas esperanças. Decidi então subir aquele monte. Olhei para trás
uma última vez, para aquela selva que nunca deixara uma alma viva escapar,
descansei um pouco, e depois, iniciei a escalada.
Eu havia dado poucos passos, quando, de repente, saltou à minha frente
um ágil e alegre leopardo. Astuto, de pêlos manchados, de todas as formas
ele impedia que eu seguisse adiante. Não adiantava desviar ou buscar um
outro caminho pois no final, ele sempre estava lá, bloqueando a minha
passagem. Várias vezes tentei vencê-lo. Várias vezes falhei.
O dia já raiava e o sol nascia com aquelas mesmas estrelas que acompanharam
o mundo no seu primeiro dia. A luz e a claridade daquele dia especial
renovaram minhas esperanças, e me fizeram acreditar que iria conseguir
vencer aquela fera malhada.
Mas a minha esperança durou pouco e o medo retornou quando vi surgir,
diante de mim, um leão. Ele parecia avançar na minha direção, com a cabeça
erguida, tão faminto e raivoso que até o próprio ar parecia temê-lo. E
depois veio uma loba, magra e cobiçosa, cuja visão tornou minha alma tão
pesada, pelo medo que me possuiu, que não vi mais esperança alguma na
escalada. A loba avançava, lentamente, e me fazia descer, me empurrando
de volta para aquele lugar onde a luz do Sol não entra.

Quando eu já me encontrava na beira daquele vale escuro, meus olhos aos
poucos perceberam um vulto que se aproximava, que apagado estivera, talvez
por excessivo silêncio.
- Tenha piedade de mim - gritei ao vê-lo - quem quer que sejas, sombra
ou homem vivo!
- Homem não mais - respondeu o vulto -, homem eu fui um dia. Nasci em
Mântua, nos tempos de Júlio César e vivi em Roma no império de Augusto.
Fui poeta e narrei a odisséia de Enéas, que fugiu de Tróia depois do incêndio.
E tu, por que não sobes o precioso monte, princípio e causa de toda glória?
- Tu és Virgílio? - perguntei, vergonhoso
- Ora, tu és meu mestre e meu autor predileto! Foi contigo que aprendi
o belo estilo poético que me deu louvor. Eu não subi o monte por causa
dessa fera. Ela me faz tremer os pulsos. Ajuda-me, sábio famoso! Ajuda-me
a enfrentá-la!
- A ti convém seguir outra viagem - respondeu o poeta, ao me ver lacrimejando
- pois essa fera, essa loba, é a mais feroz e insaciável de todas. Ela
só partirá quando finalmente vier o Lebreiro
que para ela será a dura morte. Ele não se alimentará nem de dinheiro,
nem de terras; só a sua sabedoria, amor e virtude poderão nutri-lo. Ele
virá para salvar a tua Itália caída. Ele irá caçar essa fera em todas
as cidades até encontrá-la, quando então a matará e a conduzirá de volta
ao inferno, de onde a Inveja, primeiro a trouxe para este mundo.
Depois, me fez uma proposta:
- Eu acho melhor, para teu bem, que me sigas. Eu serei o teu guia. Te
levarei para um lugar eterno onde verás condenados gritando, em vão, por
uma segunda chance. Depois verás outros que sofrem contentes no fogo,
pois têm esperança de um dia seguir ao encontro daquela gente abençoada.
E depois, se quiseres subir ao céu, lá terás alma mais digna do que eu,
pois o imperador daquele reino me nega a entrada, pois à sua lei eu fui
rebelde.
- Poeta - respondi -, eu te imploro, em nome desse Deus que não conheceste,
que me ajudes a fugir deste mal ou de outro pior. Eu te seguirei a esses
lugares que descreveste. Que eu possa ver a porta de São Pedro e os tristes
sofredores dos quais falaste!
Ele então moveu-se, e eu o acompanhei.